Eu vivia só, sem amigos com quem pudesse realmente conversar, até o dia, à cerca de 6 anos atrás, em que tive uma avaria no motor e aterrei num local repleto de uma espécie de rampas mas onde não existia ninguém.
Este local pareceu uma cidade abandonada à muitos e muitos anos. Olhei em volta e não vi ninguém decidi então começar a consertar o meu avião. Tinha de o arranjar rapidamente porque só tinha alimento para 8 dias.
Na primeira noite, adormeci no chão deitado sobre a terra.
Imaginem então a minha surpresa quando, ao despertar do dia, um ruído estranho me acordou. Parece-me um barulho familiar, talvez fosse algo com rodas ou fruto da minha imaginação.
Levantei-me e segui o ruído que me levou até a um lugar onde o ferro reflectia a luz do sol e ouvi:
-Desenha-me um carneiro.
-O quê?
-Desenha-me um caneiro...
Esfreguei os olhos. Olhei bem. E vi um pedaço de gente, com um boné preto, de pala ao lado, trazia uns bermudas e uma camisola com a imagem do sol, na mão tinha um skate.
Olhei para aquela criança e pensei com os meus botões que ele não tinha ar de alguém que vivia num lugar tão deserto, não parecia ter fome ou sede e nem uma pontinha de medo. Quando consegui falar, perguntei-lhe:
"- Que fazes aqui?"
Ele repetiu em tom sério e calmo:
"- Por Favor, desenha-me um carneiro."
Quando vivemos uma situação estranha, que nunca imaginamos viver não temos reacção. Ali naquele lugar deserto, cheio de rampas e até assustador pelo seu silêncio, tirei do bloso uma folha de papel e um lápis. Nesse instante lembrei-me de que não sabia desenhar e disse:
"- Eu não sei desenhar".
Ele respondeu:
"- Não faz mal, desenha-me um carneiro."
Eu zangado respondi:
"- Mas eu já te disse que não sei desenhar!".
-" Não faz mal, desenha-me um carneiro"- repetiu ele.
Ainda mais furioso perguntei-lhe: "- Mas eu por acaso falo chinês?"
- "Desenha-me um carneiro:"
Ele parecia não ouvir nada do que eu lhe dizia apenas pedia repetidamente que lhe desenha-se um carneiro.Eu cansado de lhe tentar explicar decidi fazer o desenho. Desenhei um dos únicos desenhos que sabia, o da giboia fechada. Ele olhou atentamente e disse:
"- Não, eu não quero um elefante dentro de uma jibóia. A jiboia é perigosa e o elefante muito grande. Onde eu moro é tudo muito pequeno! Eu quero um carneiro".
Fiquei admirado ele era a primeira pessoa a entender o meu desenho. Peguei no lápis e desenhei. Ele observou e disse:
"- Não, esse está doente, desenha outro.
"Voltei a desenhar, o pequeno principe olhou, sorriu e disse:
"- Isto não é um carneiro, é um cabrito não vês como salta!"
A minha paciência estava a chegar ao fim, desisti. Decidi deselhar uma caixa e dizer-lher que o caneiro estava lá dentro, ele olhou e respondeu...."
- Esta caixa é muito pequena… Como pode caber um carneiro lá dentro?
Por favor faz outra!
"Com tanto que fazer, vem agora um “pequenote” mandar em mim?”, pensei eu. No entanto resolvi aceder mais uma vez ao seu pedido e desenhei uma caixa maior. Ele olhou atentamente para a caixa e exclamou:
- Está tão tristinho … falta-lhe alegria. Dá-lhe um pouco de cor! Não quero um carneiro normal, mas sim um radical! Um carneiro cinzento é muito banal …
Eu perguntei: Como posso dar-lhe cor?
- Já reparaste onde estás?
Eu respondi: parece que vi um half-pipe, por isso presumo que estou num skatepark.
- E não reparaste nos graffitis que estão espalhados por todo o lado? Porque não utilizar as latas de spray que aqui estão no chão, para colorir o meu carneiro?
Como continuava sem saber como desenhar o carneiro, colori a caixa.
O menino olhou e disse:
- Mesmo como eu queria… vou chamar-lhe arco-íris. Tem o pelo branquinho que me faz lembrar o Inverno, manchas castanhas e amarelas que lembram o Outono, os olhos azuis que me fazem lembrar o mar e o Verão e finalmente as patinhas rosas e lilases que me fazem lembrar a Primavera. Mas falta uma cor …
Já cansado, perguntei: O que falta agora?
- O verde da erva, como queres que ele sobreviva sem comer?
Eu respondi: Repara bem … no cantinho aí está a erva. Não falta nada!
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